
Desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro, em 1992 (Eco92), todo dia 22 de maio é celebrado o Dia Internacional da Biodiversidade. A data funciona como um lembrete anual de que a manutenção da variedade de vida no planeta depende de decisões políticas, econômicas e culturais que devem ser atualizadas diante do imenso desafio de mitigar o impacto da degradação do planeta pelo agente humano e das consequentes mudanças climáticas e suas consequências desastrosas para a vida de todas as espécies, inclusive a nossa própria. Para 2026, o tema oficial da data é “Acting locally for global impact” (Agindo localmente para um impacto global).
Isso significa que a campanha deste ano foca em ações de biodiversidade no nível local (comunidades, cidades, escolas, projetos concretos), mostrando como essas iniciativas, somadas, contribuem para as metas globais para frear a perda de biodiversidade. A campanha em nível mundial está organizada em três eixos: Look and Learn (olhar e aprender sobre a biodiversidade local e o Marco Global), Connect and Act (conectar se com outras iniciativas e agir) e Share (compartilhar as ações e aprendizados).
Para nós do Santuário Silvestre Animal Care, a data é uma oportunidade para mostrar nosso trabalho de manutenção da vida silvestre ameaçada como um exemplo concreto de ação local pela biodiversidade, tanto nas ações de resgate, cuidado, educação ambiental e mobilização social, que geram um impacto positivo dentro desse cenário global.
O que significa dizer que o Brasil é megadiverso
O Brasil é reconhecido internacionalmente como um dos países megadiversos do planeta, condição refletida na necessidade de uma estratégia nacional robusta de conservação e uso sustentável da biodiversidade. Essa riqueza biológica está distribuída em biomas como Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e sistemas costeiro-marinhos, e envolve não apenas espécies carismáticas da fauna, mas também plantas, fungos, microrganismos e os processos ecológicos que mantêm os ecossistemas funcionando.
Essa diversidade, porém, não abstrata. A pluraridade de espécies sustenta as dinâmicas ecossistêmicas essenciais, como a regulação do clima, a proteção de nascentes, a polinização, a dispersão de sementes, a manutenção de solos férteis e a oferta de recursos biológicos para alimentação e saúde. Por isso, quando uma área é desmatada, um rio é contaminado ou uma espécie desaparece, a perda não é apenas “ambiental”: ela afeta diretamente a segurança hídrica, a produção de alimentos, a saúde coletiva e a sobrevivência de outras formas de vida,tanto nas regiões de floresta, como nas áreas rurais e também urbanas.
O cenário atual da fauna ameaçada
Os dados oficiais do governo brasileiro mostram que o país reconhecia 1.254 espécies da fauna ameaçada de extinção nas listas nacionais consolidadas pelo Ministério do Meio Ambiente, distribuídas entre 59 anfíbios, 257 aves, 102 mamíferos, 71 répteis, 393 peixes e 372 invertebrados. Esse quadro já indicava um alerta grave para a conservação da biodiversidade brasileira, especialmente porque a lista reúne grupos com funções ecológicas distintas e indispensáveis ao equilíbrio dos ecossistemas.
Em 2026, a atualização do ICMBio ampliou o alerta ao apontar 1.264 espécies ameaçadas entre 14.947 espécies avaliadas, o equivalente a 8,46% da fauna analisada. O mesmo levantamento informou que 79% das espécies ameaçadas são endêmicas, ou seja, existem apenas no Brasil, e mostrou que 426 espécies ameaçadas não estão dentro de unidades de conservação. Entre os biomas com mais espécies em risco, a Mata Atlântica aparece com 661 espécies ameaçadas, seguida pelo Cerrado, com 339.
Esses números ajudam a explicar por que a perda de biodiversidade não pode ser tratada como um problema distante. Quando espécies endêmicas desaparecem, o planeta inteiro perde uma parte única de sua história evolutiva. E quando os biomas mais pressionados concentram o maior número de espécies ameaçadas, fica evidente a ligação entre destruição de habitat, fragmentação de paisagens, queimadas, expansão desordenada de atividades econômicas e colapso da fauna silvestre.
O que o Brasil está fazendo até 2030
Em resposta a esse cenário, o governo federal estruturou a Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB) 2025–2030, prevista no Decreto nº 12.485/2025 e estabelecida pela Portaria GM/MMA nº 1.519, de 25 de novembro de 2025. A diretriz organiza objetivos para 2050 e metas para 2030, alinhando o Brasil à Convenção sobre Diversidade Biológica e ao Marco Global de Kunming-Montreal.
As metas recomendadas para 2030 incluem reduzir ameaças à biodiversidade, zerar o desmatamento e a conversão da vegetação nativa, restaurar ecossistemas, deter extinções de espécies, reduzir poluição, minimizar impactos da mudança do clima e ampliar acesso a dados, participação social e financiamento para a conservação. Em dezembro de 2025, o lançamento público da nova estratégia reforçou que o plano reúne 25 metas nacionais e 234 ações para orientar a proteção, o uso sustentável e o financiamento da biodiversidade brasileira até 2030.
O que isso tem a ver com um santuário de fauna
No cotidiano de um santuário de fauna, como o Animal Care, a biodiversidade não é um conceito genérico. Ela aparece concretamente nas histórias de animais que perderam seus habitats, foram vítimas do tráfico, sofreram com queimadas, foram retirados da natureza ou chegaram debilitados por contextos de degradação ambiental. A crise da biodiversidade se materializa nesses indivíduos, que passam a depender de cuidado humano porque o ambiente que sustentava sua vida foi rompido.
Ao mesmo tempo, nosso trabalho é um meio de conscientização da sociedade para a conservação. Ao mostrar a trajetória de cada animal acolhido, ajudamos a traduzir em linguagem acessível o que significa perder biodiversidade: não é apenas perder “espécies”, mas romper relações entre floresta, alimento, abrigo, reprodução, água, clima e bem-estar animal.
Biodiversidade é responsabilidade compartilhada
No Dia Internacional da Biodiversidade, a principal mensagem não é apenas celebrar a riqueza biológica do Brasil, mas reconhecer sua vulnerabilidade e a urgência de protegê-la. A condição de país megadiverso traz responsabilidade proporcional: conservar biomas, fortalecer áreas protegidas, combater o tráfico de fauna, reduzir desmatamento e poluição, apoiar ciência e valorizar povos e comunidades que historicamente mantêm relações sustentáveis com os territórios.
Para o público, isso também se traduz em escolhas práticas: não comprar animais silvestres, não apoiar atrações que exploram fauna, desconfiar de cadeias produtivas associadas à destruição de habitat, compartilhar informação de qualidade e apoiar projetos sérios de conservação. A biodiversidade brasileira é uma das maiores riquezas do país, mas sua permanência depende da capacidade de transformar conhecimento em compromisso.
Ana Manuella Soares, Jornalista e Mestre em Divulgação de Biociências.